Casos reais
Como empresas reais colocaram IA no dia a dia (e o que dá para copiar)
Muita gente fala de IA na empresa, poucos mostram o que aconteceu depois do anúncio. Este artigo reúne cinco casos públicos, com fonte, de empresas que colocaram IA na rotina: Klarna, Shopify, Duolingo, Morgan Stanley e iFood. Para cada um, você vê o que fizeram, o que funcionou, o que deu errado ou foi criticado, e o que uma empresa de 10 a 200 pessoas pode copiar já na próxima semana. No final, há um checklist para a segunda-feira.
Neste artigo
- Por que olhar casos (e não só ferramentas)
- Klarna: eficiência no atendimento, e o preço de exagerar
- Shopify: o dono define a regra do jogo
- Duolingo: comunicar mal custa caro
- Morgan Stanley: IA em cima do conhecimento da casa
- iFood: agentes coordenados e IA para o pequeno negócio
- O que os casos não mostram
- O padrão comum: o que os casos têm em comum
- O que copiar na segunda-feira
- Próximo passo
Por que olhar casos (e não só ferramentas)
Ferramenta de IA não falta. O que falta é saber como ela entra no trabalho de verdade: quem usa, em qual tarefa, com quais dados, quem confere e como se mede. É aí que a maioria das empresas trava.
Os casos abaixo são de empresas grandes, mas foram escolhidos porque cada um ensina uma coisa diferente e que se traduz para uma empresa média. Um mostra o ganho e o tropeço no atendimento. Outro mostra como o dono define a regra do jogo. Outro mostra o custo de comunicar mal. E dois mostram o padrão que mais funciona: IA apoiando quem já faz o trabalho, com os dados da própria casa.
- Mar 2023Morgan Stanley fecha parceria com a OpenAI
Objetivo: dar aos consultores acesso rápido ao conhecimento interno do banco. O assistente chega a todos em setembro de 2023.
- Fev 2024Klarna divulga o primeiro mês do assistente
2,3 milhões de conversas, dois terços dos chats de atendimento, segundo a empresa.
- Jun 2024Morgan Stanley lança o Debrief
IA que faz as notas da reunião com o cliente. O banco diz que 98% das equipes de consultores já usam o assistente.
- Abr 2025Memorandos da Shopify e do Duolingo
Shopify: IA vira expectativa básica. Duolingo: empresa “AI-first”, com corte gradual de terceirizados.
- Mai 2025Recuos e esclarecimentos
Klarna admite queda de qualidade e volta a recrutar humanos. CEO do Duolingo diz que não comunicou bem.
- Ago–Out 2025iFood lança a agente Cris e mostra números
Assistente para restaurantes no WhatsApp. Em outubro, 90% do atendimento passa por três agentes de IA.
- Mai–Ago 2026Escala e balanço
iFood: 14 mil agentes internos para cerca de 8,5 mil funcionários. Duolingo: usuários diários crescem 23% no 2º trimestre.
Klarna: eficiência no atendimento, e o preço de exagerar
O que fizeram
A Klarna, empresa sueca de pagamentos, colocou um assistente de IA no chat de atendimento. Em 27 de fevereiro de 2024, a empresa anunciou que, no primeiro mês, ele teve 2,3 milhões de conversas, dois terços dos chats. Segundo a Klarna, fazia o trabalho equivalente a 700 atendentes, resolvia em menos de 2 minutos o que levava 11, tinha satisfação parecida com a dos humanos e reduziu em 25% os contatos repetidos.
O que deu errado
Pouco mais de um ano depois, o próprio CEO, Sebastian Siemiatkowski, admitiu o problema em entrevista à Bloomberg, relatada pela CX Dive em maio de 2025: o custo pesou demais na decisão e o resultado foi atendimento de qualidade mais baixa. A empresa voltou a recrutar pessoas para o atendimento e passou a dizer que o cliente precisa saber que sempre terá um humano se quiser. Em junho, ele chamou o atendimento humano de “VIP”: IA para o simples, gente para o que importa.
A IA não saiu de cena. Em novembro de 2025, na divulgação do terceiro trimestre, a Klarna disse que o assistente já fazia o trabalho de 853 pessoas e tinha economizado US$ 60 milhões. A mesma reportagem lembra que os custos de atendimento e operação ainda subiram no ano, e traz um analista da Forrester dizendo que a empresa “exagerou” na virada.
A lição para a sua empresa
Automatizar o atendimento simples funciona. Medir só custo é armadilha. Antes de ligar um robô no seu WhatsApp, defina duas métricas além do tempo de resposta: satisfação do cliente e quantas vezes ele volta pelo mesmo problema. E deixe sempre visível o caminho para falar com uma pessoa.
Shopify: o dono define a regra do jogo
O que fizeram
Em 7 de abril de 2025, Tobi Lütke, fundador e CEO da Shopify, publicou um memorando interno que tinha começado a vazar. A ideia central: usar IA de forma “reflexiva” virou expectativa básica para todo mundo, inclusive a liderança. E uma regra prática: antes de pedir mais gente ou recursos, o time precisa mostrar por que não consegue fazer aquilo com IA. Ele também propôs uma pergunta para as equipes: como seria esta área se agentes de IA já fizessem parte do time?
O uso de IA também entrou nas avaliações de desempenho e entre colegas.
O que foi criticado
A regra de contratação pegou mal para muita gente, porque soou como “IA no lugar de pessoas”, num momento de preocupação com empregos. A TechCrunch lembrou que a Shopify tinha cerca de 8.100 funcionários em 2024 e havia cortado 20% da equipe no ano anterior.
A lição para a sua empresa
Numa empresa média, quem decide se a IA entra de verdade é o dono. Sem uma regra clara, ela fica no “cada um usa se quiser”. Você não precisa copiar o tom, mas pode copiar a pergunta: antes de contratar para uma tarefa repetitiva, alguém testou se dá para resolver com IA e um processo melhor? Isso é decisão, não ferramenta.
Duolingo: comunicar mal custa caro
O que fizeram
No fim de abril de 2025, o CEO do Duolingo, Luis von Ahn, publicou no LinkedIn um memorando dizendo que a empresa seria “AI-first”. Segundo a Fortune, o texto dizia que a empresa deixaria aos poucos de usar terceirizados em trabalhos que a IA pudesse fazer, avaliaria fluência em IA nas revisões anuais e só contrataria se o time não conseguisse automatizar mais.
O que deu errado
A reação foi forte, dentro e fora da empresa, inclusive nos comentários das redes do app. Semanas depois, von Ahn escreveu que não tinha feito bem o anúncio, disse que não via a IA substituindo funcionários e anunciou oficinas, conselhos consultivos e tempo reservado para experimentar. Em agosto, ao New York Times, admitiu que faltou contexto e afirmou que a empresa nunca demitiu funcionários efetivos.
O negócio seguiu. Na carta aos acionistas do 2º trimestre de 2026 (agosto de 2026), a empresa informa 58,7 milhões de usuários ativos por dia, alta de 23% em um ano, e cita recursos com IA, como a conversa por vídeo, como parte da estratégia. Não dá para atribuir esse crescimento só à IA, e a própria empresa cita outros fatores.
A lição para a sua empresa
Numa empresa de 30 pessoas, a notícia “vamos usar IA” chega no corredor como “vão cortar gente”. Diga o que vai mudar, em quais tarefas, o que acontece com quem faz essas tarefas hoje e como cada pessoa vai aprender. Treinamento e tempo para testar vêm junto com o anúncio, não depois da crise.

Morgan Stanley: IA em cima do conhecimento da casa
O que fizeram
Em março de 2023, a área de gestão de patrimônio do Morgan Stanley anunciou uma parceria com a OpenAI para criar um assistente que encontra e resume o conteúdo interno do banco: pesquisas, relatórios, procedimentos. Ele foi liberado para todos os consultores em setembro de 2023.
Em junho de 2024 veio o Debrief: com autorização do cliente, a IA anota a reunião, lista as próximas ações, rascunha o e-mail de acompanhamento (que o consultor revisa e envia se quiser) e salva o registro no CRM, o sistema de clientes. No mesmo comunicado, o banco diz que 98% das equipes de consultores já tinham adotado o assistente.
O que observar
O depoimento de ganho (“meia hora por reunião”) é de um consultor escolhido pelo próprio banco. E o desenho tem limites claros: a IA prepara, a pessoa decide e envia. O banco repete que o relacionamento com o cliente continua sendo humano.
A lição para a sua empresa
A adoção foi alta porque a ferramenta resolve uma dor diária de quem usa (achar informação, fazer ata) e trabalha em cima do conhecimento da empresa, não da internet. Você pode fazer o mesmo em escala menor: reunir propostas, contratos-modelo, tabela de preços e respostas frequentes num lugar só e deixar a IA consultar ali. É o que chamamos de memória da empresa no Business AIOS.
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iFood: agentes coordenados e IA para o pequeno negócio
O que fizeram
No Bloomberg Línea Summit, em outubro de 2025, o CEO do iFood, Diego Barreto, disse que 90% das interações de atendimento passam por três agentes de IA: um para consumidores, um para restaurantes e um terceiro que coordena os outros, como um “maestro”. Ele estimou que a IA já responde por cerca de 30% do resultado operacional (Ebitda) e afirmou que a satisfação nesse modelo supera a do atendimento humano.
Para os restaurantes, o iFood lançou em agosto de 2025 a agente Cris, que funciona no WhatsApp: o dono do restaurante pergunta e recebe pedidos, cancelamentos, avaliações e ideias de promoção, com dados do próprio negócio e da região. Dentro de casa, em maio de 2026, a empresa contou ter 14 mil agentes de IA apoiando cerca de 8,5 mil funcionários em análises, consultas a dados e relatórios.
O que observar
Os números de Ebitda e de satisfação são falas do CEO, não dados auditados. E a meta de levar a Cris a toda a base até março de 2026 foi uma previsão; não encontrei confirmação pública de que se cumpriu.
A lição para a sua empresa
Dois aprendizados. Primeiro, agentes especializados com um coordenador funcionam melhor do que um robô que tenta fazer tudo; explicamos esse desenho em orquestração de agentes de IA. Segundo, a Cris mostra o que o dono de um negócio pequeno quer: perguntar no WhatsApp “como foi a semana?” e receber a resposta com os números dele. Não é preciso ser o iFood para ter isso.
O que os casos não mostram
Todos os casos acima vêm de comunicados, entrevistas e relatórios das próprias empresas ou da imprensa que as acompanha. Isso importa. Uma empresa tende a divulgar o que deu certo, no formato que lhe convém, e a medir o resultado com o critério que escolheu. Os números são verdadeiros no sentido de que foram publicados, mas não foram auditados por terceiros neste artigo.
- Não vemos os casos que não deram certo. Quem tentou e abandonou raramente escreve sobre isso, e é onde mais se aprende.
- Não vemos o custo completo. Tempo da equipe, retrabalho e ajustes costumam ficar fora do comunicado.
- Não vemos o que já existia. Todas essas empresas tinham dados, processos e equipes técnicas antes de começar.
- Não vemos o que mudou depois. Alguns casos, como o da Klarna, mostram o próprio ajuste de rota, e é por isso que valem mais que os que só celebram.
A leitura útil, então, é a de padrão e não a de promessa: o que se repete entre empresas de setores diferentes, e que você pode testar em pequeno antes de apostar.
O padrão comum: o que os casos têm em comum
Tirando o tamanho e o setor, os casos que deram mais certo seguem a mesma sequência. E os tropeços aparecem quando uma etapa é pulada: a Klarna mediu só custo, o Duolingo pulou a conversa com as pessoas.
- 01Comece por uma dor
Uma tarefa repetitiva e cara: atendimento, ata de reunião, busca de informação, relatório semanal.
- 02Use os dados da casa
A IA trabalha com suas propostas, preços, regras e histórico, não com respostas genéricas.
- 03Humano aprova
A IA prepara, a pessoa revisa e decide. E o cliente sempre consegue falar com alguém.
- 04Meça mais que custo
Tempo, qualidade, satisfação e retrabalho, antes e depois.
- 05Comunique e treine
Diga o que muda, para quem, e reserve tempo para o time aprender.
Se quiser ver exemplos de onde essa sequência costuma começar em cada área (comercial, financeiro, operação), veja as aplicações. E se a dúvida for qual dor atacar primeiro, o artigo por onde começar com IA na empresa mostra como fazer esse diagnóstico antes de escolher ferramenta.
O que copiar na segunda-feira
Próximo passo
Os casos mostram que a ferramenta é a parte mais fácil. O difícil é escolher a dor certa, organizar os dados da casa e decidir quem aprova o quê. Isso depende de quanto a sua empresa ainda passa por você.
Um bom primeiro passo é medir isso. O Índice de Dependência (IDD) é um questionário gratuito, de poucos minutos, que dá uma nota de 0 a 100 e mostra onde a empresa mais depende de você. Ele está em contato, junto com a opção de pedir um diagnóstico.
Fontes
- Klarna AI assistant handles two-thirds of customer service chats in its first monthKlarna, 2024-02-27
- Klarna changes its AI tune and again recruits humans for customer serviceCX Dive, 2025-05-09
- Klarna CEO says company will use humans to offer VIP customer serviceTechCrunch, 2025-06-04
- Klarna says its AI agent is doing the work of 853 employeesCX Dive, 2025-11-20
- Shopify CEO tells teams to consider using AI before growing headcountTechCrunch, 2025-04-07
- Shopify to adopt AI-first approach to hiringChannelNews
- Duolingo CEO clarifies AI-first stance after backlashFortune, 2025-05-24
- Duolingo CEO admits controversial AI memo 'did not give enough context'Fortune, 2025-08-18
- Duolingo Q2 2026 shareholder letter (Form 8-K, Exhibit 99.2)Duolingo / SEC, 2026-08-05
- Key milestone in innovation journey with OpenAIMorgan Stanley, 2023-03-14
- Morgan Stanley Wealth Management announces AI @ Morgan Stanley DebriefMorgan Stanley, 2024-06-26
- No iFood, uso de IA tem impacto crescente sobre o resultado operacional, diz CEOBloomberg Línea, 2025-10-28
- iFood terá orquestrador de agentes de IA em 2026, revela diretorMobile Time, 2025-08-05
- iFood conta com 14 mil agentes de IA para apoiar seus colaboradoresMobile Time, 2026-05-13




